quarta-feira, 6 de abril de 2016

A História das religiões e o estudo do cristianismo antigo.


A história das religiões procura abordar e estudar os fenômenos religiosos a partir de uma perspectiva não confessional (ou seja, não se professando ou aderindo a nenhuma religião em específico); a partir de uma perspectiva histórica, procurando a ajuda de outras ciências sociais, como a antropologia e a sociologia, por exemplo. Analisa a importância das religiões no espaço e no tempo, e como elas influenciam na cultura e no desenvolvimento dos povos e sociedades, procurando explicar sua influência nos diferentes campos, seja o social, o cultural ou político, por exemplo. 
Assim sendo, um quadro teórico que adote a abordagem própria da história das religiões dialoga com várias outras áreas de abordagem histórica, como a história social, cultural, política, etc.  

Por se tratar de uma abordagem não confessional, a história das religiões não deve se confundir com a teologia, apesar de a última se servir de conceitos teológicos em suas análises. Um historiador das religiões deve ter um conhecimento teológico que lhe ajude a compreender a(s) religião(s) que estuda; mas para ele, a teologia é um meio, uma ferramenta, e não o fim. 

De modo análogo, o historiador das religiões pode se utilizar de outras áreas do conhecimento, como, por exemplo, a filologia e a linguística, mas sempre como meio e ferramenta, nunca como fim. No caso do exemplo que acabo de citar, o uso pode se justificar pela necessidade muitas vezes de se recorrer a fontes primárias escritas ou conservadas em outras línguas; no caso do cristianismo antigo, principalmente o grego antigo, mas também o latim e algumas línguas orientais, tais quais o copta ou o siríaco, por exemplo. Seria bastante útil para um historiador que se interesse, portanto, pelas origens do cristianismo, possuir um conhecimento filológico dessas línguas antigas. No entanto, ele não age como o linguista, que tem na própria língua o seu objeto de trabalho, seu fim. Para ele, a língua é uma ferramenta, um meio que o ajuda a entender e decifrar fontes primárias, na tentativa de explicar historicamente as crenças religiosas, no caso aqui exemplificado, do cristianismo.

Há quem procure abordar e explicar a história por meio das relações sociais, culturais ou de gênero; há quem foque na economia ou na política. O historiador das religiões faz seu trabalho centrado nesse aspecto tão particular e praticamente onipresente na história humana, o fenômeno religioso, o sagrado.

Tradicionalmente, as abordagens que adotam o quadro teórico da história das religiões tendem a ser comparatistas, ou seja, procuram comparar os diferentes fenômenos religiosos, nos diferentes períodos da história, apontando as semelhanças e também as diferenças. No tocante ao desenvolvimento das diferentes religiões, procura analisar como se deram as mudanças ao longo da história nas crenças, ritos e sistemas simbólicos. 

No caso do estudo das origens do cristianismo e de seu desenvolvimento durante os primeiros séculos de nossa era, o historiador das religiões pode centrar seus interesses e suas análises nos mais diversos objetos e questões, desde o contexto de composição dos evangelhos ao imaginário do martírio, por exemplo.

Um exemplo interessante de como a história das religiões pode dialogar com outras áreas da história diz respeito, por exemplo, ao triunfo do cristianismo no Império Romano no séc. IV; como uma religião até então marginalizada e ilegal passou, a partir de Constantino a exercer papel fundamental nas relações e decisões políticas do Império Romano. O historiador da política que se interesse pelo Império Romano a partir do séc. IV, portanto, jamais poderia realizar seu trabalho sem o auxílio do trabalho do historiador das religiões. 

A importância da história das religiões é tão grande nesse exemplo do qual nos ocupamos aqui pontualmente que o primeiro historiador a analisar a crise do Império Romano, Edward Gibbon, ainda no séc. XVIII, apontou nada mais nada menos do que o próprio advento do cristianismo como principal causa da crise e da queda (GIBBON, Edward. Declínio e Queda do Império Romano, São Paulo: Cia das Letras, 1989). Por mais que essa teoria seja hoje considerada equivocada e simplista, por diversas razões, não se pode negar a importância do cristianismo na engrenagem que explica o baixo Império Romano. Em quem senão o historiador das religiões poderia explicar a história dessa religião que moldou a cultura e civilização ocidentais?       

Por se tratar de uma abordagem, portanto, multidisciplinar, a quem prefira chamar o campo da história das religiões de "ciências das religiões". Em algumas universidades, já existem cursos de graduação que levam esse nome. A própria Université Laval, em Québec, por exemplo. No Brasil, a Universidade Federal de Juiz de Fora e a Universidade Federal da Paraíba são as pioneiras, contando já há alguns anos com esse curso de graduação.  

terça-feira, 29 de março de 2016

Nota de Falecimento: James M. Robinson




Fiquei sabendo hoje que o Professor James M. Robinson faleceu no último dia 22.

É com pesar que repasso a notícia aqui no Blog. 

A contribuição de Robinson para os estudos do gnosticismo antigo e dos códices de Nag Hammadi são incomensuráveis. 

Dentre as muitas e notáveis contribuições dele, podemos citar sua participação nos trabalhos da UNESCO de recuperação dos Códices de Nag Hammadi e o fato de ele ter sido o editor chefe da primeira coleção de edições críticas desses textos (detalhes sobre isso podem ser encontrados no primeiro capítulo do meu último livro, A Gnose em Questão). 

Não poderíamos deixar de citar também o fato de ele ter feito uma minuciosa investigação sobre a descoberta e trajetória dos códices de Nag Hammadi, até serem guardados definitivamente no Museu Copta do Cairo. Os resultados dessa investigação foram contados em uma comunicação lida num congresso na Université Laval: "From the Cliff to Cairo". Posteriormente, essa comunicação foi publicada juntamente com as demais apresentações do Seminário num volume da seção "estudos" da Série Bibliothèque copte de Nag Hammadi

Abaixo, segue o link com o comunicado de falecimento feito pela Claremont School of Theology: 

http://cst.edu/in-memoriam-professor-emeritus-james-robinson/