terça-feira, 5 de setembro de 2017

Os nomes dos evangelistas e a tradição




A foto acima é do detalhe do final do Evangelho de Marcos – um dos textos que compõem o Novo Testamento – do chamado Codex Vaticanus, uma das mais antigas cópias completas da Bíblia (provavelmente séc. IV), hoje conservada na Biblioteca do Vaticano. Obviamente, os textos do Novo Testamento circulavam antes disso, mas, essa é uma das cópias completas - por assim dizer - mais antigas que conhecemos.  

Abaixo ao centro, pode-se ler o título do texto: "Segundo Marcos" (em grego, Kata Marcon). Só que o título, e consequentemente a atribuição da autoria, não fazem parte do texto original. O título foi adicionado ao longo da transmissão do texto. 

De fato, em nenhum dos 4 evangelhos canônicos há qualquer atribuição de autoria. No Evangelho de Marcos não há nada que diga que o autor é Marcos; no de Mateus não há nada que diga que o autor é Mateus; no de Lucas não há nada que diga que o autor é Lucas e no de João não há nada que diga que o autor é João. 

A atribuição das autorias dos evangelhos nos é informada pela tradição, por autores posteriores, do séc. II em diante. mais precisamente, Papias de Hierápolis e Irineu de Lyon. 

Ou seja, sem a tradição, sequer saberíamos quem são os autores dos evangelhos.   

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Descoberto o Falsificador do 'Evangelho da Esposa de Jesus'

Uma nova informação sobre o Evangelho da Esposa de Jesus tem circulado desde o ano passado, mas, só foi chegar aos meus ouvidos essa semana. Mas, é como diz o ditado, antes tarde do que nunca. Ao que tudo indica, o falsificador do fragmento em questão foi identificado; ele se chama Walter Fritz e é um alemão que vive há anos nos EUA. O objetivo deste post é fornecer um resumo da questão. Quem tiver interesse em ler sobre as informações detalhadas, pode clicar nos links indicados ao longo do texto.

Foto de Walter Fritz segundo o blog Evangelical Textual Criticism
  
A informação tem sido divulgada em vários blogs desde o ano passado. O maior responsável por desvendar esse último detalhe da trama que envolveu a falsificação desse fragmento que ficou conhecido como Evangelho da Esposa de Jesus foi o jornalista Ariel Sabar, da revista The Atlantic. Em um artigo de junho de 2016, Sabar expôs os resultados de um excelente e complicado trabalho investigativo que o levou a identificar o falsificador. Cerca de 4 anos após a divulgação do fragmento no Congresso Internacional de Estudos Coptas, chega ao fim a saga do Evangelho da Esposa de Jesus. O artigo completo de Sabar pode ser lido clicando aqui

Outras pessoas expuseram resultados sobre as investigações que levaram à identificação do falsificador, entre eles Christian Askeland e Peter Gurry. Os resultados das investigações de ambos podem ser encontrados no blog Evangelical Textual Criticism.

Vale lembrar que mesmo antes da identificação do falsificador, não restava dúvidas quanto ao fato de o fragmento em questão se tratar de uma falsificação moderna. As evidências que apontavam para a falsificação eram muito numerosas e claras, e a prova definitiva foi apontada por Christian Askeland, como esse blog mostrou em abril de 2014 (para mais detalhes, clique aqui).  A própria Karen King, responsável pela divulgação do fragmento em 2012, já havia admitido ano passado que se tratava muito provavelmente de uma falsificação (clique aqui). 

Sobre o falsificador, Walter Fritz, sabe-se que ele estudou Egiptologia na Alemanha e chegou a publicar um importante artigo em 1991 sobre o período Armaniano - o icônico período da história do Egito faraônico - no periódico alemão Studien zur altagypschen Kultur. Segundo o blog Evangelical Textual Criticism, Fritz chegou a comprar o domínio www.gospelofjesuswife.com na internet algumas semanas antes de king divulgar a existência do fragmento em Roma, em setembro de 2012. Fritz também seria um grande admirador dos textos gnósticos. Levando em conta essas duas informações, podemos supor que Fritz teve duas motivações para levar a cabo a fabricação do fragmento: ganhar dinheiro e tentar convencer as pessoas de que existiu um relacionamento conjugal entre Jesus e Maria Madalena (talvez ele quisesse fazer uma pegadinha com os estudiosos também). 

Vale lembrar, no entanto, que essa ideia de que textos gnósticos falariam de um possível relacionamento conjugal entre Jesus e Maria Madalena é uma invenção do séc. XX, fruto de interpretações equivocadas e anacrônicas do próprios textos gnósticos. Nenhuma fonte Antiga, nem mesmo as gnósticas, falam de qualquer tipo de relacionamento conjugal entre Jesus e Maria Madalena (detalhes sobre isso podem ser encontrados no meu livro A Gnose em Questão, em específico, no capítulo 'Jesus e Maria Madalena: do Evangelho de Filipe ao Código da Vinci').

O blog Evangelical Textual Criticism diz ainda que, aparentemente, o próprio Fritz teria admitido por escrito ser o responsável pela falsificação.

Segundo Sabar e os demais que investigaram a saga da falsificação, outras pessoas estariam envolvidas no processo que fez com que o fragmento chegasse às mãos de King, que, vale lembrar, na minha humilde opinião, foi, desde o começo, enganada (ou seja, ela não sabia que se tratava de uma falsificação). Essas outras pessoas, porém, já faleceram (para mais detalhes, clique aqui).

Christian Askeland acredita que a falsificação tenha sido feita em algum momento após janeiro de 2009 (para mais detalhes, clique aqui).

Enfim chega ao fim a saga do Evangelho da Esposa de Jesus e sua falsificação (assim espero).