segunda-feira, 2 de julho de 2018

Livro em homenagem ao Prof. Paul/Hubert Poirier

Capa do livro


Eu tenho a honra de anunciar que o livro em homenagem ao prof, Paul-Hubert Poirier, meu co-orientador no doutorado e professor da Faculté de théologie et sciences des religions da Université Laval está pronto e publicado. 

Os detalhes sobre o livro podem ser conhecidos no site da editora belga Brepols (clique aqui). 

Foi um grande prazer poder ter trabalhado na organização desse livro ao lado dos colegas Steve Johnston e Eric Crégheur. 

Um agradecimento especial também ao prof. Simon Claude Mimouni, por seu trabalho na organização da coleção Judaïsme ancien et origines du christianisme.

Segue abaixo, o conteúdo do livro com os autores e os títulos de seus respectivos artigos: 


I – LE JUDAÏSME ET LES ORIGINES DU CHRISTIANISME
Simon C. Mimouni, Comment faire et écrire l’histoire des origines du christianisme ?
Alain Le Boulluec, Les recours à Isaïe 55, 8-9 dans le christianisme grec et latin des premiers siècles
Pierre Cardinal, Le dénombrement des pasteurs dans l’Apocalypse des animaux
Pierluigi Piovanelli, Lettre à un Théodore des temps modernes
II - CHRISTIANISME ÉGYPTIEN
Julio Cesar Dias Chaves et Steve Johnston, « C’est du diable qu’elle engendra Caïn » : Une catéchèse pacômienne contre les apocryphes
Lucian Dîncă, Réception de la pensée d’Athanase d’Alexandrie à travers les siècles
Jean-Daniel Dubois et Gérard Roquet, De la cohérence de la version copte des Actes de Pilate
Eric Junod, « J’éprouve une angoisse à parler, j’éprouve une angoisse à ne pas parler » (Origène, Entretien avec Héraclide 15)
III - GNOSE, GNOSTICISME ET NAG HAMMADI
Claudio Gianotto, L’uso del vangeli canonizzati in uno scritto gnostico tardivo: Pistis Sophia
Louis Painchaud and Michael Kaler, On the Pleasures and Perils of Codex Analysis
Anne Pasquier, Et la parole devint poème ! Et le livre devint corps ! Un petit « hymne » au cœur de l’Évangile de la Vérité (NH 1, 3 : 23, 20-33)
Tuomas Rasimus, The Three Descents of Barbelo and Sethian Initiation in the Trimorphic Protennoia
John D. Turner, Contemplation and Mystical Ascent in the Sethian Platonizing Apocalypse Allogenes
IV – HISTOIRE, LITTÉRATURE ET PHILOSOPHIE : DE L’ANTIQUITÉ AU MOYEN ÂGE
Eugenia Scarvelis Constantinou, The Dating and Identification of Oikoumenios: Reconsidering the Arguments
Luc Brisson, Les Pérégrinations de l’âme humaine suivant Porphyre : Une analyse de la Sentence 29
Michel Casevitz, Sur les mots du courage et de la lâcheté en grec
Dominique Côté, Le vrai Prophète et ses incarnations dans les Homélies pseudo-clémentines
Eric Crégheur, Zostrien et Zoroastre dans la littérature ancienne
Gaëlle Rioual, Aréthas, Théophane et Basile : Mise au point sur la succession des évêques de Césarée en Cappadoce au Xe siècle
V - MANICHÉISME
Wolf-Peter Funk, Preparing for the End: The Ambassador’s Command to the Great Builder
Jean-Pierre Mahé, La mission en Arménie de Mâr Gabryab, disciple de Mani : histoire et fiction
Tim Pettipiece, Biblical and Manichaean Citations in Titus of Bostra’s Contra Manichaeos
Madeleine Scopello, Quelques remarques sur les devanciers de Mani (Kephalaion, 1)
VI - LA TRADITION SYRIAQUE ET L’APÔTRE THOMAS
Andréas Su-Min Ri, La Caverne des trésors et les recherches sur Mar Éphrem
Michel Tardieu, Le Barberousse jacobite de Ḥāḥ
Einar Thomassen, Saving Letter, Saving Book: The Hymn of the Pearl, the 23rd Ode of Solomon and the Gospel of Truth
Yves Tissot, Sur les textes courts des deux premiers Actes de Thomas

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A "Carta sobre os Sínodos" de Atanásio de Alexandria e a difícil situação da Igreja no séc. IV

Capa da edição bilingue (grego/francês) do texto da Carta sobre os Sínodos, de Atanásio de Alexandria


Acabei de terminar a resenha da edição bilingue (grego/francês) do texto da Carta sobre os Sínodos, de Atanásio de Alexandria, a ser publicada na revista Laval théologique e philosophique, da Université Laval. O texto é difícil, mas também de extrema importância para a compreensão de um dos momentos mais importantes e ao mesmo tempo mais confusos da história da Igreja: o pós Concílio de Niceia

O Concílio de Niceia (325) elaborou um símbolo de fé que dizia que Jesus era "gerado, não criado, e substancial ao Pai". Esse símbolo de fé visava expressar de maneira dogmática - e portanto definitiva - a divindade de Cristo e, assim, resolver as polêmicas cristológicas levantadas desde o início do séc. IV sobre a divindade de Cristo, por aquilo que se convencionou chamar de Arianismo. O objetivo do Concílio de Niceia não era somente dizer clara e dogmaticamente que Jesus era Deus, mas, além disso, dizer como essa divindade deveria ser expressada (daí a adoção das expressões "gerado" e "consubstancial").  

Engana-se, no entanto, quem acha que as polêmicas foram resolvidas pelo Concílio; na verdade, elas até pioraram e os 50 anos seguintes ao Concílio viram uma das mais polêmicas controvérsias teológicas da história da Igreja. De um lado, aqueles que defendiam o credo niceno - representados e liderados principalmente por Atanásio de Alexandria - do outro, os que se opunham ao Concílio. 

Deve-se notar que nesse segundo momento da "crise Ariana", aqueles que eram contrários ao Símbolo niceno não eram necessariamente contrários à ideia de que Cristo era Deus, mas sim à forma como essa divindade era definida pelo próprio Símbolo. A maioria não concordava com o uso das expressões "gerado" e principalmente "consubstancial", dizendo, dentre outras coisas, que não se tratava de expressões bíblicas, mas de vocábulos que tinham sido emprestados do vocabulário filosófico grego. Por isso, costuma-se chamar a esses de "neo-arianos", já que eles não eram exatamente iguais aos arianos da primeira metade do séc. IV, que negavam a divindade de Cristo. Entre os neo-arianos encontravam-se diversos bispos e importantes e influentes teólogos da época, o que demonstra a grande dificuldade que foi manter intacto o Símbolo de Niceia e sua maneira de expressar a divindade de Cristo.  

Nessa Carta sobre os Sínodos, Atanásio fala de vários sínodos (ou seja, reuniões de bispos) orientais posteriores ao Concílio de Niceia, sínodos estes que tentaram invalidar o próprio Credo niceno ou corrigi-lo: Jerusalém (335), Antioquia I (341), Antioquia II (344), Sirmium I (351), Sirmium II (357), Rimini (357), Seleucia (359), Constantinopla (360) e Antioquia III (361). 

Obviamente, Atanásio condena virulentamente essas tentativas, defendendo com unhas e dentes o Símbolo niceno, que seria ratificado pelo I Concílio de Constantinopla, cerca de 20 anos depois de a Carta sobre os Sínodos ter sido escrita. Aliás, a controvérsia Ariana só foi definitivamente resolvida com o I Concílio de Constantinopla (381), graças também à ação teológica dos chamados "Padres Capadócios" (Basílio Magno e os dois Gregórios). 

Mas, se a doutrina de Niceia sobre a divindade de Cristo conseguiu sobreviver ao complicado o séc. IV, isso se deve em grande medida à atuação incansável de Atanásio, que, por muito tempo, foi praticamente o único defensor do Símbolo niceno. Sem sua persistência, a doutrina trinitária tal qual definida pelo Concílio de Niceia provavelmente teria desaparecido.