terça-feira, 7 de agosto de 2018

Jesus e a Sagrada Família podem ser considerados refugiados por terem fugido para o Egito?

Uma polêmica surgiu na semana passada por conta da entrevista no programa "Roda Viva" com o candidato a presidente Jair Bolsonaro. Em um dado momento, o candidato, que se diz cristão, foi questionado sobre Jesus ter sido um refugiado. Obviamente, a pergunta fazia referência ao relato do Evangelho de Mateus, que conta o famoso episódio da fuga da Sagrada Família para o Egito (Mt, 2, 13-23). 


Foto - tirada por mim em 2007 - de um mosaico representando a fuga da Sagrada Família para o Egito, na chamada 'Hanging Church', no Cairo, construída no local onde, segundo a tradição local, José ia buscar água num poço.   


A pergunta em questão tem um viés político no mínimo questionável; foi obviamente feita para colocar o candidato em uma situação constrangedora, já que, grosso modo, existe hoje uma tendência a considerar pessoas que se dizem de "direita" como sendo contra a imigração e o acolhimento de refugiados. Mas, vocês sabem, esse blog não existe para falar de política, e sim de história da Bíblia e do cristianismo antigo. Portanto, vamos falar da comparação em si (se Jesus e a Sagrada Família poderiam ser considerados refugiados ou não) e não do cunho político da pergunta. 

Obviamente, dizer que a situação de Jesus e da Sagrada Família é idêntica a de refugiados de hoje é algo anacrônico. No entanto, já vou logo avisando que não acho a comparação em si completamente descabida. vejam bem, comparar é diferente de dizer que duas coisas são iguais. A comparação é uma ferramenta que existe não somente para identificar as similaridades entre as duas coisas ou situações comparadas, mas também para identificar as diferenças. Assim sendo, creio que a comparação seja válida, porém, com algumas - talvez várias - ressalvas.  

Outra coisa a ser enfatizada desde já é que a questão a ser discutida aqui não é simples; mereceria um estudo aprofundado, levando em conta, inclusive, uma pesquisa lexicográfica sobre os termos usados pelo texto do Evangelho de Mateus para descrever a fuga da Sagrada Família e até mesmo o que os comentários mais antigos dos Padres da Igreja teriam a dizer sobre o assunto. O que se segue, portanto, são apenas algumas considerações de um historiador da Antiguidade e do cristianismo, que ainda não teve muito tempo para se debruçar sobre o assunto. 

Vale enfatizar ainda que o assunto não é novidade. Impulsionado por tantas polêmicas e notícias sobre refugiados chegando à Europa, o Jesus Blog já havia publicado um post sobre o assunto em 2017 (clique aqui); o post em questão foi posteriormente republicado pelo site da Biblical Archaeology (clique aqui).  

Discutamos, pois, a questão. Comecemos pelo próprio relato da fuga da Sagrada Família para o Egito, contado no Evangelho de Mateus

Eis que o anjo do Senhor manifestou-se em sonho a José e lhe disse: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino para o matar". Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, durante a noite, e partiu para o Egito. Ali ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: 'Do Egito chamei meu filho' (Mt 2, 13-15). 

O relato do Evangelho de Mateus continua, dizendo que o motivo da fuga foi a ira de Herodes, que mandou matar todas as crianças com menos de dois anos nos territórios que controlava para se certificar de que o Messias - no caso, Jesus - não sobreviveria e não ameaçaria no futuro o seu reinado. Estando no Egito, Jesus e sua família estariam fora da jurisdição de Herodes e, portanto, sãos e salvos. Vale lembrar que José e Maria moravam em Nazaré, na Galileia (que fazia parte da província da Síria), e que tinham ido a Belém, segundo o relato evangélico, para o recenseamento. A Galileia fazia parte da jurisdição de Herodes, a Judeia não. O esperado é que voltassem à Galileia, mas, se o fizessem, estariam indo exatamente para o território de Herodes. Apesar de Herodes não ter poder direto sobre a Judeia, é possível que tivesse certa influência na região. 

O primeiro argumento de quem achou a comparação completamente descabida que eu pude ver dizia que tanto a Judeia quanto o Egito faziam parte do Império Romano, logo, a mudança da Sagrada Família não corresponderia a uma mudança de país, uma imigração, portanto; seria algo mais parecido com uma mudança de estado, como sair do Rio e ir para São Paulo, por exemplo (sim, este foi exatamente o exemplo que me deram). Ora, comparar a mudança da Judeia para o Egito com uma mudança do Rio para São Paulo é tão anacrônico quanto dizer que Jesus é igualzinho a um refugiado de hoje.  


Mapa do Império Romano durante a fase final do governo do Imperador Otávio Augusto, por volta do ano 8 d.C., época próxima ao nascimento de Cristo.
Fonte: http://www.centuryone.com/rmnwrd.html
       
Uma viagem da Judeia para o Egito não devia ser nada fácil; o caminho era longo e possivelmente perigoso, passando por terras áridas. Além disso, é provável que houvesse muitas diferenças entre as duas províncias, apesar de ambas fazerem parte do Império Romano. Do ponto de vista religioso, arrisco dizer que o Egito tinha mais pagãos - ou seja, não judeus - do que a Judeia, apesar de o Egito ser provavelmente a região do Império que mais tinha judeus depois da própria Palestina. Portanto, é provável que a aceitação dos judeus no Egito não fosse tão fácil quanto na Palestina. Assim sendo, arrisco dizer que o ambiente religioso que a Sagrada Família encontrou no Egito não era tão favorável quanto na Palestina, na melhor das hipóteses. 

Uma tradição copta - ou seja, a tradição cristã egípcia - provavelmente tardia, já da época em que o Egito era cristão, identifica que a Sagrada Família morou na região que hoje fica na capital do país, o Cairo. Neste local, havia uma sinagoga, que teria sido frequentada pela Sagrada Família. Estando longe da Palestina, a Sagrada Família não poderia, obviamente, frequentar o Templo com certa frequência, restando-lhe somente a opção do culto sinagogal.  


Foto das ruinas da Sinagoga nas imediações do Cairo, no bairro copta; essa Sinagoga, segunda a tradição local, era frequentada pela Sagrada Família.
A foto foi tirada por mim em outubro de 2007. 
   

Do ponto de vista político, o fato de ambas as províncias fazerem parte do Império Romano não significa que elas fossem administradas de maneira idêntica. Num império gigantesco como o romano, as administrações locais tinham suas peculiaridades e no dia a dia seguiam muito mais as vontades de seus governadores e autoridades do que as do distante imperador. Um exemplo prático disso pode ser visto no próprio Egito alguns séculos depois, durante a perseguição do Imperador Diocleciano (início do séc. IV); a perseguição, provavelmente a mais sangrenta levada a cabo pelo Império Romano, atingiu várias regiões do Império, mas foi particularmente violenta no Egito, porque as autoridades locais eram as responsáveis por colocar em prática a perseguição, cada uma a seu modo, e no Egito isso foi feito de maneira mais violenta.

Além disso, como bem lembrou o colega Victor Passuello, o Egito era muito mais importante do ponto de vista econômico do que a Judeia. O Egito tinha um potencial agrícola incomparável e ficou conhecido como o "celeiro de Roma". Ainda segundo o Victor, a importância do Egito era tão grande que Otávio Augusto chegou a promulgar uma lei que proibia que qualquer oficial do exército adentrasse a província sem autorização imperial.

Podemos imaginar ainda que a Sagrada Família tenha passado por dificuldades relativas à língua. A língua materna da Sagrada Família era o aramaico; na Palestina, por mais que eles estivessem rodeados de povos helenizados, a  quantidade de judeus que falava aramaico era enorme. No Egito, se eles realmente tiverem ficado nas imediações da atual Cairo, eles tiveram que lidar com uma população muito mais helenizada e com praticamente ninguém que conhecesse o aramaico. 

Enfim, apesar de ambas as províncias fazerem parte do Império Romano, elas não eram iguais e a Sagrada Família provavelmente sentiu as diferenças culturais, linguísticas, religiosas e administrativas.     


Entrada do local onde, segundo a tradição egípcia, a Sagrada Família viveu durante sua estadia no Egito, na cidade do Cairo (notem que a sintaxe da frase está meio estranha).
Foto tirada por mim em 2007. 


Posto isso, cabe dizer que o relato do Evangelho de Mateus é lacônico sobre a estadia da Sagrada Família no Egito, não dando informações sobre nenhum detalhe. Assim sendo, só podemos conjecturar a respeito do que aconteceu com a Sagrada Família lá. Ao chegar ao Egito, de maneira repentina, José era, a rigor desempregado, e precisou arrumar uma maneira de sustentar sua família. O desemprego era algo particularmente grave, algo que poderia deixar a Sagrada Família numa situação de pobreza e indigência. Esse aspecto aproxima a Sagrada Família das famílias de refugiados dos dias de hoje, que chegam aos novos territórios sem emprego e muitas vezes sem qualquer renda. No entanto, na época de Jesus, a pobreza poderia ter consequências ainda mais graves, já que poderia levar, inclusive, à escravidão, como testemunhado pelo filósofo judeu Filon de Alexandria (15 a.C. - 45 d.C.) em uma de suas obras (De Specialibus Legibus, 2, 82) e como bem lembrado pelo post do Jesus blog citado acima. 

O mesmo post sugere que é possível que a Sagrada Família possa ter contado com a ajuda caridosa da Sinagoga, que possivelmente ajudava recém-chegados; mas o mais provável é que essa ajuda não tenha durado para sempre. Se considerarmos verossímil tal hipótese, teríamos, mais uma vez, uma semelhança entre a Sagrada Família e os refugiados de hoje, que muitas vezes dependem da ajuda de instituições de caridade para sobreviver quando chegam aos novos países para os quais fugiram.   

Falemos um pouco agora do termo "refugiado". Ao falarmos hoje de "refugiado", pensamos em pessoas que fogem de seus países ou regiões devido a situações extremas, geralmente guerras. A Guerra Civil na Síria, por exemplo, é a principal causadora do movimento de refugiados que chegam à Europa hoje. Na Antiguidade, a maneira de fazer guerra era bem diferente da de hoje. Geralmente, as tropas se encontravam no campo de batalha, onde a guerra era efetivamente travada. Se o vencedor era quem estava tentando invadir um território, ele poderia, então, entrar na cidade e pilhá-la, ou fazer isso também com as populações do campo; muitas vezes, os sobreviventes eram levados como escravos e os líderes e generais locais eram executados (veja o exemplo do que aconteceu com Dario III e Bessos durante a campanha de Alexandre, o Grande, na Báctria). No séc. XX, principalmente a partir da Segunda Guerra Mundial, houve uma mudança considerável, e os civis já começaram a sofrer durante a batalha; as cidades são bombardeadas, invadidas com blindados e infantarias. A guerra não acontece mais no campo de batalha, mas em todos os lugares. Os civis sofrem mais e morrem mais. Assim sendo, muitas vezes tentam fugir antes mesmo de as batalhas começarem, e continuam tentando fugir durante as batalhas.

Esse não foi o caso da Sagrada Família; eles não fugiram por causa de uma guerra - mesmo porque viveram num período de relativa paz dentro do Império Romano, o período conhecido como Pax romana. A causa da fuga da Sagrada Família foi uma perseguição. Muitos refugiados também são obrigados a deixarem sua pátria por conta de perseguições, apesar de, como dito acima, a maior causa dos fluxos de refugiados hoje serem guerras. Assim sendo, a Sagrada Família se assemelharia de certa forma a esses refugiados que sofrem perseguição. 

No entanto, apesar das semelhanças entre a Sagrada Família em fuga e os refugiados de hoje, eu diria que, em princípio, o uso do termo "refugiado" para se referir à primeira seria um anacronismo. Isso se deve ao fato de o conceito de "refugiado", tal qual entendido hoje, ser um conceito contemporâneo, cunhado para designar principalmente, como dito acima, pessoas que fogem de perseguições e principalmente guerras. Mas, como dito no início do post, isso não impede comparações. 

Numa conversa com colegas historiadores - entre eles Victor Passuello e Francis Farias - chegamos a conclusão de que talvez o termo mais apropriado para se referir à Sagrada Família em fuga fosse "exilados". De qualquer forma, trata-se apenas de conjecturas; a palavra final sobre o assunto - se é que existe uma palavra final nesse caso - só poderia ser dado depois de uma profunda pesquisa lexicográfica, que levasse em conta a expressão usada para descrever a fuga da Sagrada Família, comparando-a com outras expressões e interpretando suas ocorrências em outros textos antigos. 

De qualquer moda, não se pode cair no erro de que a fuga da Sagrada Família para o Egito tenha sido algo fácil e corriqueiro. A tradição cristã sempre enfatizou que a atitude de José em conduzir a fuga foi heroica e que a viagem foi difícil e arriscada. 

Recentemente, já no séc. XX, alguns Papas chegaram a comparar a Sagrada Família a famílias de refugiados. O Papa Pio XII, por exemplo, na Constituição Apostólica "Exsul Familia Nazarethana" diz logo na primeira frase que " A emigrante Sagrada Família de Nazaré, fugindo para o Egito, é o modelo para toda família de refugiados". Notem que além de usar o termo "refugiados", Pio XII também usa o termo "emigrante". Tal Constituição apostólica foi publicada em 1952, numa época em que o mundo, e principalmente a Europa, ainda sofria com milhares de famílias dilaceradas e deslocadas pelo drama da Segunda Guerra Mundial.  

Comparar a Sagrada Família a refugiados não é, portanto, nenhuma novidade na tradição da Igreja. Independentemente do contexto político que isso possa evocar. 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Livro em homenagem ao Prof. Paul/Hubert Poirier

Capa do livro


Eu tenho a honra de anunciar que o livro em homenagem ao prof, Paul-Hubert Poirier, meu co-orientador no doutorado e professor da Faculté de théologie et sciences des religions da Université Laval está pronto e publicado. 

Os detalhes sobre o livro podem ser conhecidos no site da editora belga Brepols (clique aqui). 

Foi um grande prazer poder ter trabalhado na organização desse livro ao lado dos colegas Steve Johnston e Eric Crégheur. 

Um agradecimento especial também ao prof. Simon Claude Mimouni, por seu trabalho na organização da coleção Judaïsme ancien et origines du christianisme.

Segue abaixo, o conteúdo do livro com os autores e os títulos de seus respectivos artigos: 


I – LE JUDAÏSME ET LES ORIGINES DU CHRISTIANISME
Simon C. Mimouni, Comment faire et écrire l’histoire des origines du christianisme ?
Alain Le Boulluec, Les recours à Isaïe 55, 8-9 dans le christianisme grec et latin des premiers siècles
Pierre Cardinal, Le dénombrement des pasteurs dans l’Apocalypse des animaux
Pierluigi Piovanelli, Lettre à un Théodore des temps modernes
II - CHRISTIANISME ÉGYPTIEN
Julio Cesar Dias Chaves et Steve Johnston, « C’est du diable qu’elle engendra Caïn » : Une catéchèse pacômienne contre les apocryphes
Lucian Dîncă, Réception de la pensée d’Athanase d’Alexandrie à travers les siècles
Jean-Daniel Dubois et Gérard Roquet, De la cohérence de la version copte des Actes de Pilate
Eric Junod, « J’éprouve une angoisse à parler, j’éprouve une angoisse à ne pas parler » (Origène, Entretien avec Héraclide 15)
III - GNOSE, GNOSTICISME ET NAG HAMMADI
Claudio Gianotto, L’uso del vangeli canonizzati in uno scritto gnostico tardivo: Pistis Sophia
Louis Painchaud and Michael Kaler, On the Pleasures and Perils of Codex Analysis
Anne Pasquier, Et la parole devint poème ! Et le livre devint corps ! Un petit « hymne » au cœur de l’Évangile de la Vérité (NH 1, 3 : 23, 20-33)
Tuomas Rasimus, The Three Descents of Barbelo and Sethian Initiation in the Trimorphic Protennoia
John D. Turner, Contemplation and Mystical Ascent in the Sethian Platonizing Apocalypse Allogenes
IV – HISTOIRE, LITTÉRATURE ET PHILOSOPHIE : DE L’ANTIQUITÉ AU MOYEN ÂGE
Eugenia Scarvelis Constantinou, The Dating and Identification of Oikoumenios: Reconsidering the Arguments
Luc Brisson, Les Pérégrinations de l’âme humaine suivant Porphyre : Une analyse de la Sentence 29
Michel Casevitz, Sur les mots du courage et de la lâcheté en grec
Dominique Côté, Le vrai Prophète et ses incarnations dans les Homélies pseudo-clémentines
Eric Crégheur, Zostrien et Zoroastre dans la littérature ancienne
Gaëlle Rioual, Aréthas, Théophane et Basile : Mise au point sur la succession des évêques de Césarée en Cappadoce au Xe siècle
V - MANICHÉISME
Wolf-Peter Funk, Preparing for the End: The Ambassador’s Command to the Great Builder
Jean-Pierre Mahé, La mission en Arménie de Mâr Gabryab, disciple de Mani : histoire et fiction
Tim Pettipiece, Biblical and Manichaean Citations in Titus of Bostra’s Contra Manichaeos
Madeleine Scopello, Quelques remarques sur les devanciers de Mani (Kephalaion, 1)
VI - LA TRADITION SYRIAQUE ET L’APÔTRE THOMAS
Andréas Su-Min Ri, La Caverne des trésors et les recherches sur Mar Éphrem
Michel Tardieu, Le Barberousse jacobite de Ḥāḥ
Einar Thomassen, Saving Letter, Saving Book: The Hymn of the Pearl, the 23rd Ode of Solomon and the Gospel of Truth
Yves Tissot, Sur les textes courts des deux premiers Actes de Thomas