terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Jesus e a Mídia: da Páscoa ao Natal

Essa foto foi tirada por mim mesmo há algumas semanas. Eu passava ao lado de uma banca de jornais e percebi que havia mais uma revista com um "dossiê especial" sobre Jesus. Esse tipo de dossiê é extremamente comum nessa época do ano; com a proximidade do Natal sempre aparecem reportagens "reveladoras" sobre Jesus, ou documentários que buscam desvendar a "verdade" sobre ele.
Eu mesmo já fui entrevistado por uma jornalista do UOL que fez uma matéria sobre a data do Natal (na ocasião, fiquei extremamente chateado, porque ela conseguiu manipular minhas respostas para fazer parecer que eu dizia algo que eu não disse, tanto que publiquei aqui no blog a entrevista na íntegra). 

No período anterior à Páscoa, acontece algo semelhante, uma avalanche de reportagens, dossiês e documentários sobre Jesus e aquilo que seria sua "verdadeira história". "Revelações" que envolvam Maria Madalena e sua relação com Jesus são particularmente vinculadas por esse tipo de dossiê midiático. 

Esse tipo de coisa é orquestrada, claramente. As editoras e canais de documentários sabem que no Natal e Páscoa, a sensibilidade religiosa das pessoas está à flor da pele e que esse tipo de notícia tende a gerar mais polêmica e fazer mais sucesso. Muita gente, principalmente nos países de primeiro mundo, só vai à Missa e culto nessas épocas do ano. 

Vale lembrar que nos últimos anos acompanhamos aqui no blog vários desses episódios. A versão original do livro O Código da Vinci, por exemplo, foi lançada nos EUA no dia 18 de março de 2003, em plena Quaresma daquele ano e cerca de um mês antes da Páscoa. Em 2006, o documentário da National Geographic sobre o Evangelho de Judas foi lançado no Domingo de Ramos. No ano seguinte, foi a vez do Discovery Channel lançar o documentário sobre o ossuário de Tiago no mesmo período do ano. 
E esse ano, vimos o aparecimento de mais um "Evangelho Secreto" em meados do mês de novembro, já no período que antecede o Natal. 

De certa forma, isso demonstra também que as pessoas ainda se interessam pelo cristianismo. Por que não são "descobertos" manuscritos que falam de Platão ou de Alexandre, o Grande? Porque eles não mexem com a sensibilidade religiosa e espiritual das pessoas como Jesus. Por mais que parte do mundo moderno tente desdenhar Jesus e o Cristianismo, tente demostrar que eles não despertam mais absolutamente nenhuma reação nas pessoas, fica claro que não é esse o caso. Caso contrário, revelações sobre Jesus, por mais falsas e estapafúrdias que sejam, não chamariam tanta atenção e não dariam tanta audiência nem gerariam tanto lucro para as editoras e as emissoras de TV. 


Mas se o interesse por Jesus ainda existe, fica claro que se trata de um interesse diferente do tradicional, um interesse com outros significado. Esse tipo de notícia demonstra que há uma tentativa de ao mesmo tempo dessacralizar Jesus e questionar a autoridade eclesiástica. O teor desse tipo de notícia é sempre o mesmo: Revelar o verdadeiro Jesus, o Jesus que foi escondido pela Igreja, que foi deturpado por séculos de domínio eclesiástico. Assim sendo, o Jesus dos apócrifos seria o verdadeiro Jesus, aquele que a Igreja nunca quis que descobríssemos. E esse verdadeiro Jesus é muito mais mundano do que imaginávamos: ele foi casado com Maria Madalena e teve filhos, teve irmãos, era uma espécie de "mestre espiritual" aberto a todas as espiritualidades e bem "ecumênico", etc. 


Essa tentativa de dessacralização de Jesus não tem nada de histórica; trata-se, na verdade, de uma tentativa de adaptar Jesus e seus ensinamentos aos anseios do mundo contemporâneo. Querem transformar um judeu do séc. I em uma série de coisas completamente anacrônicas: um revolucionário moderno, um hippie politicamente correto, um defensor dos animais, etc. 

Enfim, tomemos cuidado para não cair nessas conversas fiadas. 2015 está aí, vamos ver se saí algo de novo na Páscoa.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O que Constantino tem a ver com o Cânon e a Bíblia?

Fragmento de uma estátua de Constantino, o Grande


O imperador romano Constantino, também conhecido como "Constantino, o Grande", é sem dúvida um dos mais importantes personagens da história do cristianismo. Constantino não foi clérigo, nem teólogo ou santo, mas seu governo e suas ações foram de fundamental importância para a aquisição de um caráter institucional por parte da Igreja e pelo fim das perseguições aos cristãos no início do séc. IV (confira o post sobre o Edito de Milão). Foi a partir do governo de Constantino que a Igreja passou a ser uma instituição reconhecida pelo Estado. Mas, se por um lado, a Igreja deixou de ser perseguida, por outro, teve de passar a conviver com as tentativas de ingerência imperial nos assuntos eclesiásticos, doutrinais e dogmáticos. Essas tentativas de ingerência foram praticadas tanto por Constantino quanto por seus sucessores, mas raramente aceitas pelas autoridades da Igreja, o que chegou, inclusive, a causar o exílio de bispos (Atanásio de Alexandria, por exemplo, não arredou pé e foi exilado 5 vezes, por 5 imperadores diferentes). 

E é isso que muitas vezes causa confusão na cabeça das pessoas, que acabam achando que por conta dessas ingerências, a influência do poder temporal no poder espiritual foi maior do que é contado pela "história oficial". 

Voltando a Constantino, sua importância para a história do cristianismo e consequentemente da Igreja é tão grande que muita gente acaba lhe atribuindo atos e interferências em assuntos eclesiásticos que ele nunca praticou. O melhor exemplo disso é a lenda segundo a qual ele seria o verdadeiro responsável pela definição do Cânon bíblico (livros que compõem a Bíblia), tendo retirado e incluído os livros que bem entendesse na Bíblia. Mais do que isso, esse ato teria sido praticado no Concílio de Niceia (no ano de 325), um dos momentos mais importantes e representativos da História da Igreja. 

Confesso não saber a origem dessa lenda sobre Constantino definindo o Cânon no Concílio de Niceia, mas ela certamente ganhou popularidade e passou a ser parte do senso comum depois do sucesso do Código da Vinci, de Dan Brown, publicado em março de 2003, tendo virado filme de Hollywood alguns anos depois (2006, Columbia Pictures). Na era da Internet e das redes sociais, é comum ver gente divulgando essa informação falsa por aí, e pior, com ares de cientificidade e cheios da verdade, usando como "fonte" o próprio Dan Brown.         

É verdade que Constantino teve um papel importante no Concílio de Niceia, mas muito mais na sua convocação do que no seu desenvolvimento e nas suas decisões. Mas o mais importante no tocante a essa questão do Cânon é que o Concílio de Niceia simplesmente não discutiu nem proclamou nada em relação a isso. Voltaremos a essa questão mais tarde. 

Por hora, discutamos a convocação do Concílio de Niceia. Para que se possa entender o Concílio em questão e sua convocação, é necessário entender a discussão teológica que o gerou. No início do séc. IV, um popular presbítero chamado Ário começou a proclamar em Alexandria que Jesus era uma criatura; a mais excelsa das criaturas, criada antes do tempo e por meio da qual todo o resto teria sido criado, mas mesmo assim, uma criatura. Como o foco do post não é o arianismo (doutrina de Ário e suas vertentes), não vamos nos ater aos detalhes dessa questão, mas apenas elucidar que com o tempo, as ideias de Ário se popularizaram e se espalharam por toda a cristandade, que, na época em questão, praticamente coincidia com o Império Romano. 

E o imperador da época era exatamente Constantino. Para Constantino, a unidade do cristianismo e da Igreja coincidiam com a unidade de seu império. Com o Edito de Milão e o fim das perseguições, o cristianismo tornou-se gradualmente a religião majoritária do Império Romano e uma divisão entre os cristãos poderia acarretar numa divisão política. Por isso, Constantino tentou se envolver na discussão, enviando seu teólogo pessoal, Osius, bispo de Córdoba, para Alexandria, foco do arianismo. A tentativa de conciliação em questão não deu certo, então, Constantino decidiu convocar aquilo que seria o primeiro Concílio Ecumênico da história da Igreja, o Concílio de Niceia, em 325. Osius de Córdoba teve um papel fundamental no Concílio, mas isso foi o mais perto que Constantino esteve de participar ativa e efetivamente do evento.

Posto isso, voltemos à questão do Cânon. A principal discussão do Concílio de Niceia não visava, nem de longe, a questão do Cânon, mas a divindade de Cristo e a maneira como ela deveria ser expressa dogmaticamente. Nem nas discussões adjacentes do Concílio, a questão do Cânon foi abordada. Foram discutidas questões relativas às estruturas eclesiásticas, à dignidade do clero, readmissão de cismáticos e hereges, e prescrições litúrgicas, por exemplo. Não houve absolutamente nenhuma discussão sobre o Cânon (quem quiser conferir o Símbolo do Concílio de Niceia em português e o conteúdo de cada um dos assuntos discutidos, pode dar uma olhadinha no Wikipedia clicando aqui). Quem quiser olhar uma fonte menos acessível, mas mais confiável, pode consultar manuais de Patrologia (eu indico o do Altaner & Stuiber ou o do Drobner; sempre uso ambos nas minhas aulas).   

A lenda sobre a qual falamos acima (Constantino seria o verdadeiro definidor do Cânon), portanto, simplesmente não procede. Constantino foi muito importante para a história do cristianismo, sem dúvida. Mas no Cânon e em assuntos dogmáticos ele nunca tocou. 

Mas como o Cânon foi definido? Porque alguns livros foram incluídos na Bíblia e outros não? O que são "apócrifos"?  

Esse é um assunto para o próximo post. Aguardem.