sexta-feira, 25 de abril de 2014

A tinta do fragmento da "Esposa de Jesus" e a evidência (definitiva) de falsificação.

A internet é realmente fantástica. A mesma internet que nos bombardeia diariamente com informações falsas e inúteis, também é um grande instrumento de colaboração acadêmica, por exemplo. Sem a internet, a rápida e eficiente comunicação entre estudiosos de diferentes países, fundamental na identificação da fraude do fragmento que ficou conhecido como "Evangelho da Esposa de Jesus, jamais seria possível. 

Na última quinta-feira, dia 24 de abril de 2014, outro capítulo dessa saga pôde ser visto. O colega Christian Askeland, que tive o prazer de conhecer pessoalmente em dezembro de 2013, num congresso em Oslo,  escreveu um post esclarecedor em seu blog. No mesmo dia, algumas horas depois, meu amigo Alin Suciu publicou em seu blog algumas informações adicionais, tomando como ponto de partida a descoberta de Askeland. 

Antes de falar das descobertas de Askeland e Suciu propriamente ditas, falemos de um ponto específico discutido na edição especial da Harvard Theological Review publicada no início do mês de abril de 2014 (fizemos um post sobre o assunto aqui no blog). 

Espero que as considerações a seguir não sejam técnicas demais; a maioria das informações é de difícil compreensão para quem não é da área. Mas como o objetivo do blog é tornar tais informações acessíveis, me esforcei ao máximo para ser claro. 

Um dos assuntos discutidos na edição em questão, a tinta usada no manuscrito, foi tida como o melhor argumento em favor da autenticidade do fragmento. Segundo a análise, trocando em miúdos, a tinta era compatível com a tinta usada em outros fragmentos antigos ou medievais. Inclusive, foi o ponto abordado pela grande mídia, que divulgou coisas como "segundo especialistas, o EEJ não é falso". Vale lembrar, no entanto, que mesmo que a tinta fosse compatível com tintas usadas em manuscritos antigos, a falsificação não estava descartada, pois nada impediria que o falsificador usasse uma tinta semelhante às antigas. Como a datação da tinta não foi feita, essa possibilidade continuava a existir. 

Pois bem, aquilo que parecia ser o principal (e único) argumento em favor da autenticidade do fragmento tornou-se a pista para que mais uma evidência - talvez a definitiva - fosse encontrada. 

O que muitos (eu, inclusive) não sabiam, é que aparentemente uma das amostras de tinta utilizadas na comparação vinha de um outro fragmento de origem desconhecida que contém um trecho do Evangelho de João. E esse fragmento faria parte do mesmo conjunto de fragmentos do qual faria parte o "Evangelho da Esposa de Jesus" e teria sido entregue à King pela mesma pessoa que lhe entregou o "Evangelho da Esposa de Jesus". Ora, uma tal comparação apresenta, por si só, vários problemas metodológicos. Como basear tal comparação em um fragmento de origem e datas desconhecidas?

De qualquer forma, o melhor ainda estaria por vir. Christian Askeland analisou paleograficamente o fragmento do Ev. de João e concluiu que o escriba que copiou o texto é o mesmo que copiou o texto do fragmento do "Evangelho da Esposa de Jesus"; e mais, ele (ou ela) o fez utilizando o mesmo instrumento. Askeland foi além e observou que o fragmento do Ev. de João estava escrito no dialeto Licopolitano do copta; e é aí que a cobra começou a fumar.

Sabe-se que a maioria dos dialetos "menores", entre eles o licopolitano,  do copta começou a desaparecer gradualmente a partir do séc. V; não há mais traços desse dialeto a partir do séc. VI. Mas se lembrarmos da datação dos fragmentos (tanto o do Ev. João, quanto o do "Evangelho da Esposa de Jesus") feita pelo tal carbono 14 - entre os séculos VII e IX - algo não bate. Não existia mais dialeto licopolitano nessa época.

Askeland foi além e descobriu que o fragmento do Ev. de João é uma reprodução fiel do chamado Codex Qau, escrito em Licopolitano. O codex em questão foi editado em 1924 por Herbert Thompson (para mais detalhes, em inglês, clique aqui).  

Suciu seguiu a pista apontada por Askeland e descobriu que a disposição das linhas no fragmento segue exatamente a disposição das linhas da edição de Thompson (para mais detalhes, em inglês, clique aqui). Ou seja, trocando em miúdos, o falsificador moderno simplesmente copiou o texto da edição de Thompson. 

Suciu postou em seu site uma foto na qual ele coloca, lado a lado, o fragmento do Ev. de João e a foto da edição de Thompson com o trecho correspondente, para não deixar dúvidas que a disposição das linhas é a mesma. Quem souber um pouquinho de copta, pode dar uma olhada: 



Algo semelhante já havia sido dito sobre o próprio "Evangelho da Esposa de Jesus"; ao que tudo indica, o falsificador moderno - o mesmo que falsificou o supracitado fragmento do Ev. de João - copiou frases soltas do Ev. de Tomé, usando igualmente uma edição moderna.

Como a pessoa que copiou ambos os fragmentos é a mesma, não resta dúvidas em relação à falsificação. Aquilo que todos já sabiam, foi confirmado definitivamente. Como o próprio Suciu disse, "caso encerrado".    

O prof. Louis Painchaud sugeriu uma possibilidade interessante ontem: e se o falsificador tivesse deixados pequenas pistas de que se trata de uma falsificação, para ver se eram descobertas? E se ele fez isso para "testar" os estudiosos? Para ver se eram capazes de descobrir a fraude. 

Resta agora saber se King vai se pronunciar sobre o assunto e se saberemos quem é o falsificador.   

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Edição especial da 'Harvard Theological Review' sobre o 'Evangelho da Esposa de Jesus'

A edição de abril de 2014 do periódico Harvard Theological Review publicou uma série de artigos sobre o polêmico Evangelho da Esposa de Jesus. Como era esperado (inclusive, sugerimos isso aqui no blog), a edição em questão saiu nas vésperas da Páscoa.
O conteúdo dos artigos é variado; questões materiais - como a data do papiro e a composição da tinta - são discutidas.
Vejam a lista completa dos artigos dessa edição que tratam do assunto: 

- Karen King. "'Jesus said to them, 'My wife...'': A New Coptic Papyrus Fragment".

- Malcolm Choat. "The Gospel of Jesus's Wife: A Preliminary Paleographical Assessment".

- James T. Yardley e Alexis Hagardorn. "Characterization of the Chemical Nature of Black Ink in the Manuscript of the Gospel of Jesus's Wife through Micro-Raman Spectroscopy".

- Joseph M. Azzarelli, John B. Goods e Tomothy M. Swager. "Study of Two Papyrus Fragments with Fourier Transform Infrared Microspectroscopy".

- Gregory Hodgins. "Accelerated Mass Spectrometry Radiocarbon Determination on Papyrus Samples". 

- Noreen Tuross. "Accelerated Mass Spectrometry Radiocarbon Determination on Papyrus Samples".

- Leo Depuydt. "The Alleged Gospel of Jesus's Wife: Assessment and Evaluation of Authenticity".

- Karen King. "Response to Leo Depuydt 'The Alleged Gospel of Jesus's Wife: Assessment and Evaluation of Authenticity'". 


Como a edição saiu nesta manhã, ainda não pude ler todos os artigos com calma; de qualquer modo, creio que os artigos sobre as questões materiais escritos por físico-químicos (ou seja lá como eles se chamam) sejam técnicos demais. Dificilmente vou entender todos os detalhes.

De qualquer modo, já posso tecer aqui algumas considerações preliminares sobre a questão. Obviamente, o resultado dos testes da tinta era a parte mais interessante e esperada dessa edição da HTR.

Trocando em miúdos e sendo bem direto, os testes em questão simplesmente não trazem nada de novo ao debate. Pelo que pude ler, os testes da tinta foram inconclusivos. Ou seja, nada de novo se sabe sobre a questão. 

Segundo a notícia preliminar que eu li no NYT, em relação ao papiro, analises foram feitas por três equipes de de cientistas (engenheiros, biólogos e químicos) da Universidade de Harvard, da Universidade de Columbia e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
Os resultados desses testes foram igualmente inconclusivos. Um dos testes datou o papiro entre os séculos III e V d.C.; o outro teste aponta que o papiro data do séc. VIII a.C. (isso mesmo, antes de Cristo, algo completamente inverosímel).
As divergências entre os resultados dos 2 testes - e em particular a inverosímel possibilidade de um papiro datar do séc. VIII a.C. - demonstram a falta de credibilidade e exatidão desse tipo de teste. Relatórios posteriores dizem que o teste feito em Arizona sugeriu uma datação entre os  sécs. V e III antes de Cristo. Uma data que continua sendo inverosímel.

Segundo Christian Askeland, um dos mais notórios estudiosos de manuscritos antigos atualmente,  a data mais provável do papiro deveria ser situada entre os sécs. VII e IX depois de Cristo (para mais detalhes, clique aqui).


De qualquer modo, a possibilidade de um papiro antigo que foi usado na falsificação já havia sido levantada por alguns estudiosos. Deve-se lembrar, no entanto, que o papiro em si é apenas um dos componentes do fragmento. É perfeitamente possível comprar pedaços de papiros antigos hoje em dia, tanto no mercado negro no próprio Egito, quanto na internet, como o próprio blog já mostrou (clique aqui).
É perfeitamente possível que o falsificador tenha adquirido um desses pedaços de papiros antigos para realizar sua falsificação.
Enfim, todos os outros problemas que apontam para uma falsificação - a gramática, a paleografia, o formato do fragmento, etc. - amplamente discutidos aqui e em vários outros blogs, continuam a existir. A possibilidade de falsificação continua sendo a mais provável.

Em suma, nada de novo foi acrescentado ao polêmico caso.