quinta-feira, 5 de março de 2015

A Formação do Cânon e os Apócrifos

Foto do Codex Vaticanus aberto.
O Codex Vaticanus é uma das mais antigas cópias da Bíblia, 


O assunto desse post talvez seja um daqueles que mais desperta o interesse do grande público: os famigerados apócrifos e porque eles não fazem parte do Cânon. 

O assunto é sem dúvida complexo, e envolve diversos assuntos correlatos. A formação do Cânon é um processo longo, mesmo porque envolve não somente o Novo Testamento, mas também o Antigo. Portanto, seria impossível tratar de todas essas questões de maneira satisfatória em único post. Para quem quiser saber mais sobre o assunto, eu sugiro a leitura do livro do Julio Trebolle Barrera, A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã: uma Introdução à História da Bíblia. Neste post falaremos de maneira específica dos chamados Apócrifos do Novo Testamento e porque eles não fazem parte do Cânon. 

A quem interessar, acrescento que tenho um projeto de escrever um livro sobre o assunto a médio prazo. Um livro acessível, que visa um público leigo no assunto, e não especialistas.  

Bom, o primeiro passo é definir o que é um apócrifo. Sempre que dou palestras sobre o assunto, começo logo perguntando à platéia: "o que é um apócrifo". A primeira resposta sempre é: "um livro que não faz parte do Cânon" ou "um livro que não faz parte da Bíblia". Essas respostas não estão erradas, mas são simplistas e incompletas. Ora, pensemos num livro qualquer composto e publicado no séc. XX: Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Esse livro, todos sabemos, não faz parte do Cânon, nem por isso é um apócrifo. O mesmo se pode dizer de praticamente todos os outros livros já escritos na história da humanidade, com exceção dos 73 livros que formam o Cânon. 

Ou seja, um apócrifo é muito mais do que um livro que não faz parte do Cânon. A palavra "apócrifo" significa, via de regra, livro secreto. Mas aquilo que chamamos de apócrifo é muito mais que isso. Para facilitar a vida de vocês, segue uma tentativa de definição de "apócrifo" feita por mim mesmo:    


Apócrifo do Novo Testamento é um texto composto na Antiguidade ou Antiguidade Tardia, com conteúdo religioso e/ou teológico, que imita ou faz referência a um dos gêneros literários do Novo Testamento (Evangelhos, Epístolas, Atos e Apocalipses) cuja autoria é falsamente atribuída (pseudonímia) a uma figura de destaque do judaísmo ou cristianismo primitivo, geralmente um apóstolo. Os assuntos teológicos e religiosos tratados pelos apócrifos são os mais variados possíveis; não existe, nem de longe, qualquer tipo de unidade teológica ou doutrinal entre os diversos apócrifos hoje conhecidos; muitos deles professam doutrinas hereges, mas nem todos. Eles foram elaborados em contextos, línguas, épocas e locais diversos, o que impossibilita que eles sejam estudados de maneira monolítica ou homogênea.  


A definição é grande e complexa. Não temos espaço aqui para comentar de maneira detalhada todas os seus pormenores. Vamos nos ater àquilo que diz respeito diretamente à formação do Cânon. 

Ora, como diz nossa definição, os apócrifos fazem referência ou imitam um dos gêneros literários do Novo Testamento. Se isso acontece, é porque necessariamente os apócrifos são posteriores à composição dos textos do Novo Testamento. Ou seja, os apócrifos não são da mesma época do Novo Testamento, não foram compostos no séc. I, nos anos ou nas décadas posteriores à morte de Jesus e à expansão inicial do cristianismo. De maneira geral, os apócrifos são obras que começam a ser compostas a partir da segunda metade do séc. II (mas muito foram compostos bem depois disso).   
Existe, portanto, um intervalo de pelo menos cerca de 50 anos entre a composição do texto neotestamentário mais recente ( o Evangelho de João, composto na virada do séc. I para o II) e os primeiros apócrifos. 

Essa questão cronológica nos leva a tratar de outro ponto da nossa definição, chamada pseudonímia. Chama-se assim o ato de se atribuir falsamente a autoria de um texto a uma figura conhecida, que goze de autoridade frente a um determinado grupo. No caso dos cristãos, geralmente a apóstolos. Portanto, um texto como o Evangelho de Tomé, por exemplo, não foi composto pelo apóstolo Tomé, mesmo porque na época em que ele foi composto (segunda metade do séc. II em diante), o apóstolo Tomé não estava mais vivo. E essa é uma característica comum a todos os apócrifos. 

Foto de duas páginas do Codex II de Nag Hammadi,
com o fim do Apócrifo de João e o início do Evangelho de Tomé


Vejamos o que alguns autores da Igreja primitiva, Papias de Hierápolis, Justino Mártir e Irineu de Lyon têm a dizer sobre os Evangelhos em específico. 

Papias de Hierápolis viveu na virada do séc. I para o séc. II, mais ou menos de 70 a 163. Ele viveu, portanto, na época em que os textos do Novo Testamento foram compostos. Os escritos de Papias não foram preservados integralmente, mas apenas de maneira indireta e fragmentária por meio da obra de Eusébio de Cesaréa. Dois desses fragmentos são os mais antigos textos que falam da autoria de pelo menos 2 dos Evangelhos canônicos: Marcos e Mateus.  

Entre 155 e 160, Justino Mártir fala em duas de suas obras, a Primeira Apologia e o Diálogo com Trifão sobre o que ele chama de as "Memórias dos Apóstolos". Vejamos um exemplo: 


Foi isso que os apóstolos, nas memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram 
(1a Apologia, 66, 3). 


No Diálogo com Trifão, Justino confirma que essas memórias eram lidas nas Assembleias dos Cristãos. Ou seja, temos a evidência de que já no séc. II, os Evangelhos eram conhecidos e usados pela cristandade, inclusive na Liturgia. 

Alguns anos depois, por volta de 180, Irineu, bispo de Lyon, em sua obra conhecida como Contra as Heresias, nos fala do "Evangelho Quadriforme"(Contra as Heresias III, 11,8). Irineu usa essa expressão para designar os 4 Evangelhos canônicos que conhecemos hoje (Marcos, Mateus, Lucas e João), alertando os cristãos para a existência de outros evangelhos que já começavam a circular na sua época, mas que não eram dignos de confiança. 

Posto isso, podemos supor com certo grau de plausabilidade que os primeiros apócrifos começaram a aparecer na segunda metade do séc. II, entre o relato de Justino e o relato de Irineu. Podemos também assegurar que os 4 Evangelhos já eram lidos na Liturgia cristã nessa época. E por fim, podemos também concluir que nessa época, os cristãos já atribuíam um caráter sagrado aos 4 Evangelhos e atestavam que eles foram compostos pelos apóstolos ou discípulos dos apóstolos, e que ao menos certas autoridades eclesiásticas alertavam para o caráter falso (inclusive no tocante a pretensa autoria) de outros textos que se apresentavam como Evangelhos. 

Na medida em que as décadas passavam, os 4 Evangelhos se difundiam pelo mundo romano e eram cada vez mais lidos e consumidos pela cristandade, sendo usados na Liturgia. E o mesmo foi acontecendo com os demais textos do Novo Testamento (somente o caso do Apocalipse é peculiar, pois esse texto demorou para ser aceito no Oriente, mas isso é assunto para outro post). Alguns apócrifos também foram lidos, difundidos e usados em liturgias específicas, mas nunca de maneira universal, como aconteceu no caso dos textos neotestamentários. 

Esse é um dos critérios de estabelecimento do Cânon, portanto: a universalidade da aceitação por parte dos cristãos da Antiguidade. Nenhum apócrifo chegou a gozar de uma autoridade e aceitação universal como o Evangelho de Mateus, por exemplo. 

Mas, do ponto de vista teológico, esse critério é secundário. O principal critério de canonicidade é a inspiração. Do ponto de vista teológico, para que um texto faça parte do Cânon, é necessário que ele seja inspirado. E como saber se um texto é inspirado ou não? Já na Antiguidade, a Igreja, por meio de bispos e até de Papas, usou sua autoridade para definir isso. 

No séc. IV, ao menos um documento eclesiástico define o Cânon de maneira institucional e oficial. Vejam bem, estamos falando de maneira oficial e institucional, porque, na prática, para a grande maioria dos cristãos, o Cânon já era conhecido. 

Um desses documentos é a Carta Festiva de 367 de Atanásio. Nessa carta, o Bispo de Alexandria fornece uma lista dos livros canônicos. No tocante ao Novo Testamento, essa lista tem exatamente os mesmos textos do Novo Testamento hoje. Ainda no séc. IV, o Papa Dâmaso ordenou que Jerônimo normatizasse a tradução Latina da Bíblia (essa versão ficou conhecida como Vulgata). A Vulgata tornou-se de certa maneira uma versão oficial da Igreja Latina, com os mesmos textos do Novo Testamento que até hoje são considerados canônicos pelos católicos.  


Como dito no começo do post, o processo de formação e definição do Cânon do Novo Testamento é longo e complexo. Os apócrifos ficaram fora dele por diversos motivos, nenhum deles político, como muitas vezes nos é sugerido pela mídia e industria do entretenimento.                 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Jesus e a Mídia: da Páscoa ao Natal

Essa foto foi tirada por mim mesmo há algumas semanas. Eu passava ao lado de uma banca de jornais e percebi que havia mais uma revista com um "dossiê especial" sobre Jesus. Esse tipo de dossiê é extremamente comum nessa época do ano; com a proximidade do Natal sempre aparecem reportagens "reveladoras" sobre Jesus, ou documentários que buscam desvendar a "verdade" sobre ele.
Eu mesmo já fui entrevistado por uma jornalista do UOL que fez uma matéria sobre a data do Natal (na ocasião, fiquei extremamente chateado, porque ela conseguiu manipular minhas respostas para fazer parecer que eu dizia algo que eu não disse, tanto que publiquei aqui no blog a entrevista na íntegra). 

No período anterior à Páscoa, acontece algo semelhante, uma avalanche de reportagens, dossiês e documentários sobre Jesus e aquilo que seria sua "verdadeira história". "Revelações" que envolvam Maria Madalena e sua relação com Jesus são particularmente vinculadas por esse tipo de dossiê midiático. 

Esse tipo de coisa é orquestrada, claramente. As editoras e canais de documentários sabem que no Natal e Páscoa, a sensibilidade religiosa das pessoas está à flor da pele e que esse tipo de notícia tende a gerar mais polêmica e fazer mais sucesso. Muita gente, principalmente nos países de primeiro mundo, só vai à Missa e culto nessas épocas do ano. 

Vale lembrar que nos últimos anos acompanhamos aqui no blog vários desses episódios. A versão original do livro O Código da Vinci, por exemplo, foi lançada nos EUA no dia 18 de março de 2003, em plena Quaresma daquele ano e cerca de um mês antes da Páscoa. Em 2006, o documentário da National Geographic sobre o Evangelho de Judas foi lançado no Domingo de Ramos. No ano seguinte, foi a vez do Discovery Channel lançar o documentário sobre o ossuário de Tiago no mesmo período do ano. 
E esse ano, vimos o aparecimento de mais um "Evangelho Secreto" em meados do mês de novembro, já no período que antecede o Natal. 

De certa forma, isso demonstra também que as pessoas ainda se interessam pelo cristianismo. Por que não são "descobertos" manuscritos que falam de Platão ou de Alexandre, o Grande? Porque eles não mexem com a sensibilidade religiosa e espiritual das pessoas como Jesus. Por mais que parte do mundo moderno tente desdenhar Jesus e o Cristianismo, tente demostrar que eles não despertam mais absolutamente nenhuma reação nas pessoas, fica claro que não é esse o caso. Caso contrário, revelações sobre Jesus, por mais falsas e estapafúrdias que sejam, não chamariam tanta atenção e não dariam tanta audiência nem gerariam tanto lucro para as editoras e as emissoras de TV. 


Mas se o interesse por Jesus ainda existe, fica claro que se trata de um interesse diferente do tradicional, um interesse com outros significado. Esse tipo de notícia demonstra que há uma tentativa de ao mesmo tempo dessacralizar Jesus e questionar a autoridade eclesiástica. O teor desse tipo de notícia é sempre o mesmo: Revelar o verdadeiro Jesus, o Jesus que foi escondido pela Igreja, que foi deturpado por séculos de domínio eclesiástico. Assim sendo, o Jesus dos apócrifos seria o verdadeiro Jesus, aquele que a Igreja nunca quis que descobríssemos. E esse verdadeiro Jesus é muito mais mundano do que imaginávamos: ele foi casado com Maria Madalena e teve filhos, teve irmãos, era uma espécie de "mestre espiritual" aberto a todas as espiritualidades e bem "ecumênico", etc. 


Essa tentativa de dessacralização de Jesus não tem nada de histórica; trata-se, na verdade, de uma tentativa de adaptar Jesus e seus ensinamentos aos anseios do mundo contemporâneo. Querem transformar um judeu do séc. I em uma série de coisas completamente anacrônicas: um revolucionário moderno, um hippie politicamente correto, um defensor dos animais, etc. 

Enfim, tomemos cuidado para não cair nessas conversas fiadas. 2015 está aí, vamos ver se saí algo de novo na Páscoa.