sábado, 9 de fevereiro de 2008

Gnosticismo: uma construção moderna?

Foram os estudiosos dos séculos XVIII e XIX que começaram a utilizar a palavra “gnosticismo” (que vem da palavra grega gnosis = conhecimento) para designar movimentos religiosos da antiguidade. Grosso modo, segundo eles, gnósticos eram os adeptos de “seitas”, algumas cristãs outras pré – cristãs, que acreditavam que o conhecimento era a chave da salvação; mas não se tratava de qualquer conhecimento: era necessário conhecer o verdadeiro Deus, o Pai supremo, diferente do criador do mundo material, o deus das escrituras judaicas. A parte espiritual do homem seria oriunda desse Deus supremo, mas a ignorância e ciúme do criador prendiam o homem ao mundo material; a salvação consistia então, em conseguir, após a morte do corpo, ascender até o pleroma, morada do Deus superior. Mas para isso, era necessário primeiro conhecer a origem divina do ser humano, ou seja, uma origem espiritual que remontaria ao Deus supremo, diferente da origem material oriunda do criador. Além do mais, para chegar até o pleroma, era necessário passar pelo criador e pelos seus anjos que tentariam a todo custo impedir a ascensão do ser espiritual.
Muita gente acreditava nisso que eu disse ai em cima; e os estudiosos dos séculos XVIII e XIX resolveram chamá-los de “gnósticos” e os estudiosos do séc. XX, e também os do séc. XXI continuaram a chamá-los assim. Mas alguém na antiguidade se designou como “gnóstico”? Existiu uma “religião gnóstica”? A resposta das fontes antigas para ambas as perguntas é não. As fontes nos demonstram que os cristãos ditos “gnósticos”, aqueles que acreditavam, grosso modo, no sistema descrito acima, muito provavelmente enxergavam-se como cristãos; claro, cristãos superiores, mas não formavam seitas ou religiões distintas. Tudo isso se insere no complexo contexto do cristianismo primitivo, um contexto plural, numa época na qual a ortodoxia, consagrada pelo Concílio de Nicéia, ainda estava se formando.
Eventualmente, a consolidação da fé católica e a institucionalização do credo de Nicéia como única forma correta de cristianismo acabou fazendo com que esses cristãos “diferentes” fossem cada vez mais excluídos; e tudo indica que eles desapareceram.
Enfim, só para concluir, deve-se dizer que nenhuma fonte nos relata um desses cristãos chamando-se a si mesmo de “gnóstico” ou definindo sua fé como “gnosticismo”. Somos nós, os modernos que utilizamos tais nomes, de maneira arbitrária, para nos referirmos a esses fenômenos da antiguidade e seus adeptos.

Um comentário:

Guilherme Coelho disse...

Oi Júlio,

Aqui é seu primo de BH. Cara, já li algumas coisas sobre gnosis na internet, mas confesso conhecer superficialmente o tema, porém, admito profunda curiosidade. Preso o princípio de que antes de qualquer crença religiosa ou não, o debate e o conhecimento são fundamentais. Espero trocar informações com você daqui em diante e vou acompanhar as postagens. Gostei muito do blog. Abraço

Guilherme Coelho